Obesidade – É preciso cuidar de todo um ecossistema

19/05/2023

Obesidade – É preciso cuidar de todo um ecossistema

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Por Dr. Felipe Koleski

No meu livro Histórias de Peso – A obesidade como ela é, falo sobre um aspecto pouco abordado da obesidade: a solidão. Pessoas com obesidade não raro se sentem sozinhas. Isso se manifesta de várias maneiras.

Nem sempre percebemos, mas isolar no grupo social quem está acima do peso é um comportamento comum. A criança não é convidada para brincar ou jogar, o adolescente fica sem dançar na festa, o adulto só é legal se for alegre ou engraçado. São manifestações de um tipo de preconceito que chamamos de gordofobia. Felizmente, hoje vejo um esforço para mudar isso na escola, nas empresas e até na mídia.

Mas a solidão também está dentro de casa: ao fazer o tratamento clínico da obesidade, é comum a pessoa sentir falta de apoio familiar. O paciente encara o plano alimentar ou a rotina pós-cirurgia bariátrica sozinho, enquanto os demais integrantes da família não renunciam à pizza, ao churrasco e à sobremesa. Outras vezes a pessoa se torna refém de um relacionamento abusivo. Relato no livro casos de pacientes que decidiram se separar após o tratamento, pois junto com a saúde recuperaram a autoestima.

Obesidade não é uma escolha

É preciso esclarecer antes de tudo que a obesidade não é uma escolha nem resultado do desleixo com o próprio corpo, como imaginam alguns. Trata-se de uma realidade para quatro em cada 10 brasileiros, segundo o IBGE. O ganho de peso é desencadeado por fatores como genética, ansiedade, estresse, cultura alimentar, uso de medicamentos e até baques emocionais. Não existe uma causa só, pois a obesidade é multifatorial. Adicione-se uma vida sedentária e a superoferta de junk food, a comida com muita caloria e poucos nutrientes, e a equação está formada.

É necessário dizer ainda que ninguém precisa ser magro por imposição de um padrão longilíneo de beleza. Cada corpo tem a sua constituição própria, e como médico afirmo que a saúde é o essencial. Na abordagem da obesidade o que precisa ser levado em conta é a qualidade de vida do paciente e o risco de doenças ligadas à gordura corporal, como diabetes, hipertensão e mais de 30 tipos de câncer. Sempre insisto: ser obeso não é defeito e ser magro não é qualidade.

Mas o quero destacar aqui é que precisamos atacar a solidão também no cuidado da obesidade. Em primeiro lugar, porque é um caso para endocrinologista, nutrólogo, psicólogo, nutricionista, profissional de educação física e, quando necessário, cirurgião bariátrico e plástico. Todos juntos. Desconfie quando alguém oferecer sozinho o tratamento da obesidade, pois ele é multidisciplinar.

E principalmente porque não se cuida apenas de um paciente, mas de um ambiente. O ecossistema ao redor da pessoa precisa participar: companheiro, companheira, filhos, pais, avós, amigos, escola, colegas de trabalho, todo mundo. Até os programas de fim de semana, os vídeos assistidos no YouTube e os perfis seguidos nas redes sociais, tudo isso é recomendável readaptar para tirar o protagonismo da comida.

A chance de sucesso aumenta quando o engajamento é de todos.

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